Trabalhos-Vivência: uma observação

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Tradicionalmente, trabalhos escolares são apresentados com cartazes, textos, maquetes… 

Todas estas maneiras de se demonstrar o conhecimento adquirido são válidos. São avaliáveis e podem servir de registro para assegurar a finalização de um projeto.

Entretanto, é comum que nós, alunos, enfrentemos um impasse na hora de definir uma apresentação para certos trabalhos. Às vezes essas opções parecem insuficientes… Fica um gostinho de “podia ser diferente”.

Não faz muito tempo, percebemos que, inconscientemente, recorríamos à solução da vivência: as pesquisas gerariam conhecimento para a construção de um espaço, e dentro dele gastaríamos nosso tempo.

O jantar francês é um dos eventos mais tradicionais do currículo

 

Esse tipo de proposta não é nova, como conta o Professor Emerson: “Faço o jantar francês desde 2012. No começo quem fazia era eu, mas aí um dia uma sala quis ficar responsável pelo preparo das comidas. Aí os alunos viam e queriam fazer também… Ficou institucionalizado”.

O jantar, tipicamente realizado com os alunos do segundo ano do ensino médio, sai como uma das maiores lições do colégio: 

“Esquecer ou não do reinado do Luís XVI, isso não importa. Mas lembrar de organizar tudo, de preparar e viver o jantar, isso vocês vão.”

 

Outras formas de apresentação

Dentro do Ensino Médio, a vivência é ainda mais presente.

Como sentir o verdadeiro ar de uma exposição de arte sem uma mostra real, com direito a coquetel, discurso e fitas no chão delimitando a distância que devemos permanecer dos trabalhos?

O salão da escola vira galeria, lounge de jazz, festa latina, premiação do Oscar…

De acordo com o Professor William, esse tipo de trabalho foi surgindo espontaneamente dentro da sua aula. Restou entender que é uma maneira especial para o aprendizado: tendo experiências.

Não é raro encontrar um grupo de alunos vestidos a caráter andando pelos pátios e corredores do colégio.

 

Já que o objetivo é imergir, nada mais justo do que imergir completamente: nos eventos, os uniformes não têm vez. É sempre combinado o uso de modelos que remetam à época e ao espaço onde os acontecimentos reproduzidos aconteciam.

Como lembra Laura Oliveira: “às vezes a gente nem tem roupa chique, bonita, dos anos 20 pra vir. Mas o importante é tentar. Se não, vir arrumado e bonito é suficiente […] para sair do lugar, para sentir que é uma ocasião especial”.

Os resultados sempre são divertidos, com direito a muitas fotos pra registrar os looks.

E o preparo não fica só nas roupas: independente do teor do trabalho, sempre tentamos achar espaço pra uma comidinha, afinal, segundo Lívia Chung, do terceiro ano, “aprendemos melhor de barriga cheia”.

Estes pequenos detalhes são os que fazem toda a diferença, transformando o espaço rotineiro em um verdadeiro acontecimento.

Os “quitutes” sempre são a parte mais esperada do evento

 

Outros aprendizados

Segundo Nathali Taveira, participante da montagem da 1a Semana de Arte Moderna do Santa Felicidade, organizar um evento contribui para o senso de responsabilidade do grupo: “a sala se envolve, todo mundo corre atrás…”

Os problemas que encontra ao preparar um ambiente são maiores do que os encargos individuais, e o bom funcionamento geral importa mais do que as divisões pré-feitas.

Ainda de acordo com a aluna, o exercício da coordenação de eventos internos amplia a visão sobre a dimensão de eventos maiores como o sarau.

Avaliação

Como você pode avaliar trabalhos-vivência?

De acordo com a professora Mariana, “se ela aconteceu, ela teve sucesso. Agora, como cada um se relacionou com ela, a gente só percebe pela autoavaliação, pelo compartilhamento depois.”

O professor William ressalta que a participação dos alunos é fundamental, e por isso deve entrar na conta da avaliação. 

Segundo o professor Victor e com seus conhecimentos adquiridos na RIDEF (Reencontro Internacional de Educadores Freinet), a escola, enquanto instituição conservadora, vai desapropriando os indivíduos de seus corpos. Na infância, somos mais espontâneos no sentido de explorar o espaço físico. A educação tradicional vai nos tolhendo e mecanizando, valorizando cada vez mais o intelecto e o conhecimento acadêmico. Já no Santa, tentamos “resgatar o corpo”, afinal, é o primeiro e mais espontâneo contato que temos uns com os outros.

A “vivência” pode ser lida como parte desse resgate, tirando o conhecimento da lousa e dos cadernos, saindo do eterno pensar para o viver de fato.

O corpo é a parte fundamental, concreta e pulsante, que temos a oportunidade de “colocar em prática” em propostas como o jantar francês, a premiação do Oscar, a festa latina…

O ponto aqui é que trabalhos não necessariamente têm que gerar documentos; em determinados casos, a vivência, além de agregar mais, gera aprendizado com prazer. 

Às vezes, essa é a única opção para, literalmente, estarmos ali de corpo e alma.

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