O lugar das meninas na Pedagogia Freinet

with Nenhum comentário

O melhor conhecimento que se pode adquirir é aquele que ecoa na própria vida, que se enche de significado ao estabelecer relação com nossas experiências, e que nos transforma. Quando isso acontece, aprender é um acontecimento intenso e apaixonante!

Então por que, como disse o escritor e educador francês Philippe Meirieu, as crianças perderam o encantamento e a satisfação com o saber?

Dá pena reconhecer que a escola seja a responsável por esta frustração. Ela presumiu para si o domínio do conhecimento e ocupou-se do aluno como aquele que recebe passivamente sua sabedoria.

A Pedagogia Freinet busca superar este distanciamento. Apostando no impulso natural da criança, na sua curiosidade e capacidade de aprender.

 

Aula sobre teoremas

É previsto para o nono ano do ensino fundamental estudar os teoremas de Tales de Mileto e Pitágoras de Samos.

Durante a elaboração do Contrato de Trabalho (momento em que os alunos combinam com o professor as formas que poderão trabalhar e ser avaliados), a turma sugeriu que seria interessante abordar, juntamente com a matemática dos antigos gregos, sua filosofia, política, arquitetura e mitologia. Fecharam o acordo com a professora Letícia.

Em grupos, escolheram suas áreas de interesse e trabalharam durante três semanas respeitando o cronograma contratado. A cada dia, um secretário era responsável pelo expediente, auxiliando os grupos em relação ao tempo. A professora incumbiu-se das orientações relativas às pesquisas. Ao final das aulas, os grupos encontravam-se para socializar o progresso dos trabalhos. Neste momento, os colegas também faziam contribuições.

Para o grande dia das apresentações, foi combinado que as descobertas deveriam apontar para as influências gregas na atualidade.

Assim, convidaram um arquiteto e apresentaram um projeto que poderia ser utilizado para melhorar o prédio da escola. Organizaram jogos em que os participantes aplicavam os teoremas. Ajudados pelo professor de filosofia, decoraram a sala de aula, projetaram luzes e encenaram a alegoria da caverna de Platão por meio de fantoches de sombras. E realizaram uma assembleia aos moldes dos pais da democracia.

Conforme descobriram, na democracia ateniense participavam das assembleias apenas homens, livres, maiores de 18 anos, e que tivessem servido o exército por pelo menos dois anos.

 

4116d8ed-6246-4013-9b02-cf9acee3ff62

 

 

A assembleia

Criaram uma situação de sala de aula em que precisariam de uma assembleia para discutir e votar. Porém, desta vez, poderiam participar da reunião apenas os alunos, meninos, maiores de 14 anos, e que estivessem matriculados no colégio por pelo menos dois anos!

A situação apresentada foi a imposição de uma mapa de sala (determinar um lugar fixo para cada aluno). Os participantes apresentaram os pontos a favor e contra a determinação, enquanto as garotas assistiam a tudo indignadas, juntamente com a professora, que dava com os ombros, surpresa: “eu não posso fazer nada, sou mulher”. Ao final, o grupo reunido depositou suas moedas de votos no jarro.

Como aprenderam em suas pesquisas, os pequenos aristocratas manipularam os resultados da votação, determinaram o mapa e ainda escolheram para si os melhores lugares na sala! A decisão da assembleia foi acatada por todos durante uma semana, em respeito à democracia.


É possível imaginar o quanto este projeto afetou em cheio a vida das crianças e quantos significados decorreram desta experiência.

Os teoremas de Tales e Pitágoras passaram a integrar um cenário que ainda se conserva no cotidiano: pelas operações matemáticas que facilitaram a vida, mas também pela organização política e social que herdamos. Sobre isso, as meninas e meninos obrigados a ocupar assentos que não escolheram podem dizer com propriedade o que aprenderam.

Aprender é um acontecimento intenso e apaixonante!

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.