Há 50 anos, escola Freinet no México dá frutos maduros

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Por André Medeiros

Escola
Turma do 5º ano da Bartolomé

Graciela González de Tapia havia convivido por algum tempo com o professor Célestin Freinet e suas crianças na França. Viu o educador em plena atividade da pedagogia do bom senso. Conta que no alto da montanha em Le Bar-sur-Loup, onde lecionava, Freinet deixava seus garotos em cuecas e os despertava da preguiça aos baldes de água gelada. Depois os levava para uma aula-passeio, de onde voltavam cheios de questionamentos para os estudos. Graciela voltou para o México, abriu sua pequena escola e colocou em prática as técnicas pedagógicas apreendidas do maestro.

Já passava um mês frequentando as aulas da turma de 5º ano da Escuela Bartolomé Cossío, atualmente em bairro privilegiado da Cidade do México. Mais do que adquirir técnicas, estava lá para observar a autonomia de uma escola que há 50 anos põe em prática a experiência do balde gelado, hoje conhecida como a Pedagogia Freinet.

Por uma casualidade, quase sempre que anotava alguma consideração sobre “o que faz da Bartolomé uma escola distinta” estava fora dela, que é onde se veem os frutos. Exponho algumas histórias sobre a escola Freinet no México.

A ESPERA

Há fila de espera de dois anos para matricular-se na escola. Antes mesmo de desmamarem os filhos, os pais procuram o colégio para garantirem uma vaga no futuro. Isto porque a Bartolomé Cossío não abre mão do número reduzido de alunos para manter a qualidade do serviço. Graciela bate no peito para contar que ao prefeito da Capital Federal negou-lhe matrícula em respeito aos pais inscritos.

A CARTA

Em dada ocasião, estando na casa da educadora, nos pusemos a ler algumas cartas de ex-alunos endereçadas a ela. Uma em particular mexeu com o brio da minha investigação. Era de Magdalena, ex-aluna que vivia na Dinamarca, com um currículo que a levaria para onde desejasse. Magdalena se perguntava o que havia nela que a identificava com a escolinha em que estudara há mil anos. Sua resposta: “ali não conheci o medo”.

SEM TETO

“Na minha escola não existe teto. Se os pequenos quiserem falar de Física Quântica, nós vamos falar.” Esta foi a explicação de Chela (como Graciela é conhecida) quando recebeu o comunicado de que um ex-aluno acabava de superar um recorde mundial em biomedicina e que atribuía à “escolinha” a parte mais importante da sua formação.

BOAS-VINDAS

Depois de um mês de Bartolomé, fui realizar outros estudos no Instituto Escuela, de proposta igualmente humanista. Sem qualquer apresentação prévia, ao único garoto que ocorreu receber-me e apresentar-me o colégio espontaneamente revelou-se ser ex-aluno da Bartolomé.

LIVRO DA VIDA

Ao término de semanas convivendo com uma das poucas testemunhas vivas de Freinet, havia encontrado frutos dos 50 anos de educação em cada lugar daquela cidade imensa. Enquanto jantávamos em um restaurante de sua preferência, uma senhora interrompeu-nos para agradecer à Graciela a nomeação do filho à qualquer posto no departamento de pesquisas da UNAM (Universidade Nacional Autónoma de México). A Escuela Bartolomé Cossío tornou-se notável por devolver à sociedade uma classe de pessoas destemidas.

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